Insatisfeito com as soluções apontadas até agora para suas
questões metafísicas, o homem da atualidade já não se
contenta em crer - na verdade ele deseja saber sobre os enigmas
da existência, para os quais não encontra caminhos acessíveis
nem na religião nem nas ciências modernas. Se, por um lado, a
via do misticismo lhe cobra a renúncia a qualquer cogitação
racional, por outro a ciência lhe oferece um árido
intelectualismo que condena a legitimidade de seus anseios
espirituais.
Ora, a antroposofia procura atender a essa busca de conhecimento
sem incorrer em tais unilateralidades. Parte do fato de que a
capacidade cognitiva do homem pode ser elevada da percepção
sensorial e do pensar normal a estados superiores de
conhecimento e de consciência, sem que a pessoa tenha de
renunciar a plena lucidez de sua mente. Proporciona ao ser
humano um conhecimento da existência superior que transcede sua
corporalidade material, fisicamente perceptível.
Suas pesquisas
atestam que a expressão física da figura humana constitui
apenas um núcleo denso de uma natureza mais ampla e
pluri-organizada, cujo conhecimento abre imensas perspectivas
para uma verdadeira compreensão da existência e de suas
relações cósmicas. A esse conhecimento superior revela-se,
então, a visão de uma realidade não-física que impregna o
Universo e a própria entidade humana, acrescentando uma
dimensão espiritual aos valiosos conhecimentos acumulados pela
ciência. Esse conhecimento pode e deve ser alcançado com
plenas lucidez, dispensando estados de êxtase ou uma
consciência embotada.
É, portanto, com um pensar consciente e fortalecido pela
prática de exercícios apropriados - que o estudo da
antroposofia pode ter acesso a realidades cósmicas mais
abrangentes, das quais o próprio homem é uma síntese
incontestável. Para isso dispõe de métodos objetivos e
científicos, que igualam a antroposofia a qualquer ciência
dita exata. É nesse sentido que se pode denominá-la também
como Ciência do Espírito, aplicável, na prática, a todos os
domínios da vida humana. Não é de estranhar, portanto, que
há décadas se pratique com base em seus princípios, uma
pedagogia adotada em mais de 650 escolas em todo o mundo (a
Pedagogia Waldorf), uma medicina já bastante conceituada, uma
agricultura biodinâmica, uma pedagogia terapêutica para
crianças e adolescentes necessitados de cuidados especiais, uma
psicologia espiritual em franco desenvolvimento, uma
farmacologia ampliada uma pedagogia social voltada para o
desenvolvimento de grupos e organizações. Citem-se ainda, no
âmbito das arte, a eurritmia (arte do movimento executada nos
planos cênicos, pedagógico e terapêutico) e a arte da fala
(cultivo da linguagem mediante princípios espirituais).
Estas menções demonstram que a antroposofia não se atém ao
plano meramente teórico - ela se liga intimamente à realidade
do mundo, contribuindo com suas descobertas para uma vida humana
mais íntegra. A imagem do homem em toda a sua complexidade
físico-espiritual colabora, quando considerada em todos os
âmbitos da vida, para dignificar as realizações da humanidade
em direção a sua meta evolutiva.
O centro universal do movimento antroposófico situa-se em
Dornach, na Suíça, num edifício de arquitetura especial
denominado Goetheanum, sede da Sociedade Antroposófica
Universal e da Escola Livre de Ciência Espiritual. O endereço
para contato é o seguinte: Allgemeine Anthroposophische
Gesellschaft am Goetheanum - CH 4143 Domach - Suíça.
No Brasil instituições de diversas áreas atuam a partir de
conhecimentos antroposóficos, destacando-se:
Escolas de educação infantil, ensino fundamental e ensino
médio;
Clínicas e consultórios médico-terapêuticos;
Instituições para crianças e jovens necessitados de cuidados
especiais;
Institutos de pesquisa e desenvolvimento agrícola;
Institutos de desenvolvimento organizacional;
Escolas de arte;
Associações de naturezas diversas;
Grupos de estudo, etc.
A instituição congregadora dos conteúdos e ideais que
norteiam as atividades é a Sociedade Antroposófica no Brasil,
com sede em São Paulo. Dentre suas metas destaca-se a
divulgação da Antroposofia por meio de cursos, eventos,
palestras e publicações, sendo estas últimas produzidas por
sua editora.
Demais informações:
Sociedade Antroposófica no Brasil
Rua São Benedito, 1325 - casa 45
Alto da Boa Vista
04735-003 São Paulo - SP
tel. (011) 247-4552
home page: http://www.sab.org.br
e-mail: sabsp@sol.com.br
Editora Antroposófica LTDA
A editora dispõe de livraria
no mesmo endereço, onde, além das edições próprias,
encontra-se uma ampla literatura clássica e humanística
relacionada com temas de interesse para as várias áreas
práticas da antroposofia, bem como objetos e brinquedos
artesanais, instrumentos musicais e material pedagógico Waldorf.
O que é medicina
antroposófica?
Conheça um pouco desse grande
universo da arte de curar.
Nos últimos séculos, o
conhecimento humano tem passado por profundas transformações,
graças ao enorme desenvolvimento ocorrido no âmbito da
ciência e da tecnologia. Essa evolução tem sido marcada, no
entanto, pela forte presença das concepções materialistas
que, quando aplicadas de maneira unilateral à área biomédica,
influenciam radicalmente o conceito acerca do ser humano e,
desse modo, também a pesquisa científica e a utilização de
seus resultados.
Algumas linhas da ciência moderna ainda entendem o ser humano
como um animal especializado e refinado pela evolução das
espécies, que pode ser plenamente explicado pelos princípios
da Mecânica e da Física. Freqüentemente, não valorizam o
significado de aspectos fundamentais que o cercam, como o
ambiente em que vive, sua cultura e biografia, vida coletiva,
laços afetivos e familiares, seus sentimentos, religiosidade,
entre outros. A medicina, mais especificamente, obteve enorme
crescimento graças a esse materialismo científico, que
abriu-lhe portas para o conhecimento dos mais intrínsecos
detalhes da anatomia, fisiologia, microbiologia, bioquímica,
entre outras áreas - levando a uma natural especialização no
tratamento do corpo (seja de órgãos isolados ou de complexos
sistemas) -, utilizando-se para isso de modernos equipamentos e
substâncias sintéticas. O avanço surgido dessa maneira,
embora tenha trazido incontáveis benefícios no diagnóstico e
no tratamento de diversas doenças, gerou uma incapacidade para
compreender o ser humano como um todo.
E justamente essa visão global que a medicina antroposófica
resgata ao considerar o ser humano além do seu aspecto
corporal, valorizando também sua vida psíquica e sua
individualidade: corpo, alma e espírito - instâncias que
estão em permanente movimento e interação entre si e com o
mundo à sua volta. Mais do que uma especialidade médica, a
medicina antroposófica é, dessa maneira, uma ampliação da
medicina acadêmica; uma base a partir da qual cada médico
enriquece sua prática. Em seus princípios está a busca por
uma atuação mais viva, artística e integrada, que atenda ao
homem nas suas diversas dimensões, porque ele é um ser
corpóreo, anímico e espiritual.
Os fundamentos da medicina antroposófica surgiram na Europa, no
início do século XX, a partir do trabalho conjunto de um grupo
de médicos liderados pela Dr. Ita Wegman e Rudolf Steiner (um
dos maiores pensadores contemporâneos). Steiner deixou um
legado de mais de 60 livros e 400 monografias, nos quais
delineou as bases da antroposofia (anthropos=homem,
Sofia=sabedoria), caracterizada também como ciência
espiritual. Dedicou sua vida à tarefa de compreender e traduzir
o conhecimento dos fenômenos que não são percebidos
diretamente pelos sentidos comuns (tato, olfato, paladar,
audição e visão) e descreveu detalhadamente esses elementos
que permeiam tudo à nossa volta. Os estudos de Rudolf Stiner,
por sua vez, foram influenciados pela pesquisa de Goethe, que
chamou a atenção para a existência das formas arquetípicas
nos reinos da natureza e inundou com poesia, beleza e graça a
fria ciência do século XIX. Alguns exemplos são a teoria das
cores e os estudos sobre a metamorfose das plantas propostos
pelo cientista-poeta alemão.
A partir da antroposofia, a noção de cosmos ganha novas
dimensões. Cada elemento, substância, ser vivo e criatura
sobre a face da Terra faz parte de um único organismo, de um
todo que respira e vive. Esse cosmos possui não apenas seu
aspecto matéria visível e mensurável, com suas leis já
descritas pela física, mas também seu aspecto imaterial
(espiritual), não percebido diretamente pelos sentidos -
denominados elementos supra-sensíveis na antroposofia. E o ser
humano é considerado um imagem condensada desse cosmos, uma
microorganismo em contínua respiração com o macrocosmo. Ita
Wegman, de maneira pioneira e corajosa, não limitou-se a pensar
esses conceitos e, concretizou a medicina antroposófica ao
indicar medicamentos e terapias apropriados para esta nova
imagem da entidade humana em seu processo de saúde e doença.
De maneira mais concreta, podemos apresentar o homem, à luz da
antroposofia, como portador de quatro estruturas essenciais, de
quatro elementos constituintes, também habitualmente chamados
de "corpos". Uma analogia pode ser feita tanto com os
quatro reinos da natureza como os quatro elementos alquímicos
fundamentais. São eles:
Corpo físico: é a estrutura sólida, substancial, existente em
diversas formas em todos os reinos da terra (mineral, terra);
Corpo vital ou etérico: é o fundamento da vida, das
características puramente vegetativas (crescimento,
regeneração e reprodução), presentes em todos os organismos
vivos (vegetal, água);
Corpo anímico ou astral: é o fundamento da organização
sensitiva do homem. Ele reordena os processos biológicos,
permitindo a aparição do sistema nervoso e da vida psíquica
no mundo animal e no homem (animal, anima, alma, ar);
Organização do eu: é a organização própria do homem,
considerada como nossa entidade espiritual e responsável pela
consciência, reorganizando as atuações dos outros três
corpos. Sua presença determina o surgimento do andar ereto e
das capacidades de falar e pensar. Está relacionada com o calor
no âmbito do organismo (espírito, calor, fogo).
Assim, o diagnóstico em medicina antroposofia envolve, além da
anamnese, do exame clínico e dos exames complementares, a
pesquisa dessas estruturas não sensíveis da natureza humana
(corpo vital, corpo anímico e organização do eu), por meio de
metodologia própria, inspirada no estudo fenomenológico do
modelo vivo saudável.
A terapêutica antroposófica envolve o uso de medicamentos
específicos, procedentes de substâncias dos reinos mineral,
vegetal e animal, utilizados de acordo com processos
farmacêuticos próprios de diluição, além de terapias
complementares, tais como: terapia artística, massagem
rítmica, aplicações externas, eurritmia curativa,
musicoterapia, quirofonética, dentre outras. Como a medicina
antroposófica não se contrapõe à medicina acadêmica, há a
possibilidade de uso concomitante dos medicamentos
convencionais, quando necessário.
O aprendizado da medicina antroposófica está sistematizado e
organizado no Brasil com o Curso de Formação em Medicina
Antroposófica - curso lato sensu com duração de três anos,
oferecido pela Sociedade Brasileira de Médicos Antroposóficos
(SBMA) apenas para graduados em medicina. A SBMA dispõe ao todo
de 11 cursos em 44 países nos cinco continentes. Muitas são as
instituições médicas, clínicas e hospitais que utilizam seus
conhecimentos para cuidar, curar e aliviar o sofrimento humano,
juntamente com o uso dos melhores recursos da medicina, algumas
vezes subvencionadas por seguros de saúde privados ou pelo
poder público, como ocorre em alguns países da Europa. No
Brasil, a medicina antroposófica foi reconhecida como prática
médica em 1993, pelo Conselho Federal de Medicina, através do
processo nº 1818/93. hoje existe iniciativas em diversos
estados, ressaltando-se
o trabalho médico-social na Favela
Monte Azul em São Paulo e presença oficial na rede pública de
saúde em Belo Horizonte.
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